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Vacina russa contra Covid-19 gerou imunidade sem efeito colateral

Frascos da Sputnik V, vacina contra Covid-19 aprovada pela Rússia - Foto: Divulgação - 06.ago.2020/ Fundo Russo de Investimento Direto
 A Sputnik V, vacina russa contra o novo coronavírus, produziu resposta de anticorpos em todos os participantes dos testes em estágio inicial, de acordo com estudo publicado nesta sexta-feira (4) pela revista médica The Lancet.

Os resultados dos dois testes, conduzidos em junho e julho deste ano com 76 pessoas, mostraram que 100% dos participantes desenvolveram anticorpos para o novo coronavírus e nenhum efeito colateral sério, disse a Lancet.


A Rússia autorizou o uso de duas doses do imunizante em seus cidadãos em agosto, se tornando o primeiro país a registrar uma vacina contra Covid-19, antes mesmo da publicação dos dados sobre a Sputnik V ou que um teste em grande escala fosse iniciado.

"Os dois testes de 42 dias – incluindo 38 adultos saudáveis em cada – não encontraram nenhum efeito adverso sério entre os participantes e confirmaram que a vacina provoca uma resposta de anticorpos", diz o estudo divulgado na Lancet.



"Estudos em grande escala e de longo prazo, incluindo uma comparação com placebo e monitoramento adicional, são necessários para estabelecer a segurança e eficácia a longo prazo da vacina para prevenir a infecção por Covid-19", continua o texto.

A vacina se chama Sputnik V em homenagem ao primeiro satélite do mundo, lançado pela União Soviética. Alguns especialistas ocidentais alertaram contra o seu uso até que todos os testes aprovados internacionalmente sejam publicados e as medidas regulatórias tenham sido tomadas.

Mas com os resultados divulgados agora em uma publicação internacional com revisão por outros cientistas, e com testes envolvendo 40 mil pessoas lançado na semana passada, uma autoridade russa disse que Moscou enfrentou seus críticos no exterior.

"Com isto [a publicação do estudo], respondemos a todas as perguntas do Ocidente que foram diligentemente feitas nas últimas três semanas, francamente, com o objetivo claro de manchar [a reputação da] vacina russa", disse Kirill Dmitriev, chefe do Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF), fundo soberano do país que financiou o desenvolvimento da vacina.

Linha do tempo da Sputnik V, vacina russa contra Covid-19 - Foto: Arte CNN
"Agora... vamos começar a fazer perguntas sobre algumas das vacinas ocidentais", completou, ironicamente, Dmitriev.

Ele afirmou que pelo menos 3 mil pessoas já foram recrutadas para o teste em grande escala da Sputnik V e que os resultados iniciais são esperados para outubro ou novembro deste ano.

Em nota divulgada nesta sexta antes da publicação do estudo, o RDIF havia dito que a vacina não apresentava efeitos colaterais sérios e tinha “alta segurança e eficácia” comprovadas. 

“Os resultados dos ensaios clínicos das fases 1 e 2 da Sputnik V não mostraram eventos adversos sérios para nenhum dos critérios, enquanto a incidência de efeitos colaterais sérios para outras vacinas candidatas varia de 1% a 25%”, disse, no documento, o RDIF.

O fundo afirmou ainda que o nível de anticorpos neutralizantes de vírus dos voluntários vacinados com Sputnik V foi 1,4 a 1,5 vezes maior do que o nível de anticorpos de pessoas que tiveram Covid-19.


Opinião dos especialistas

Comentando sobre os resultados dos testes em estágio inicial, o autor principal do artigo na Lancet, Naor Bar-Zeev, do Centro Internacional de Acesso a Vacinas da Escola de Saúde Pública Bloomberg, na universidade norte-americana Johns Hopkins, disse que os estudos foram "encorajadores, mas pequenos".

Bar-Zeev, que não esteve envolvido no estudo, disse que "a eficácia clínica de qualquer vacina contra Covid-19 ainda não foi demonstrada".

Para Brendan Wren, professor de patogênese microbiana na Escola de Medicina Tropical e Higiene de Londres, os estudos sobre a Sputnik V são encorajadores. 

“Os dados do estudo com a vacina russa (...) demonstram a segurança e a imunogenicidade das vacinas contra Covid-19 com base em adenovírus”, disse.

“Os relatos são um caso de 'até agora, tudo bem', mas as respostas imunológicas podem não necessariamente evocar proteção e mais investigações são necessárias sobre a eficácia desta vacina para a prevenção de Covid-19."

Já Michael Head, Pesquisador Sênior em Saúde Global na Universidade de Southampton, no Reino Unido, disse que a Sputnik parece ser uma vacina promissora, apesar de considerar que apenas após a fase 3 dos testes clínicos será possível dizer que a ela realmente funciona.

“A confiança do público em qualquer vacina licenciada é vital e as sugestões da Rússia e dos EUA de que uma vacina pode ser acelerada sem que a pesquisa apropriada tenha ocorrido são problemáticas."


Reação russa

Em entrevista coletiva nesta sexta, após a publicação do artigo na Lancet, o Instituto Gamaleya, que desenvolveu a Sputnik V, disse que durante os ensaios clínicos foram identificados efeitos colaterais como dor de cabeça e dor muscular, mas que não apresentam ameaças.

Uma porta-voz do Instituto disse que a vacina possui uma resposta complexa, mas eficaz. “Podemos dizer que a vacina é segura e os voluntários se sentem bem”, afirmou.

O Instituto Gamaleya informou que já começou a terceira fase dos ensaios clínicos, mas não disse quantas pessoas já tomaram as doses da vacina. “A população (russa) tem uma escolha, eles podem escolher já se proteger do vírus ou esperar o ensaio com 40 mil voluntários acabar”, disse um porta-voz.

Já Dmitriev disse acreditar que a Sputnik V é mais eficaz do que a vacina da AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, devido ao seus dois vetores diferentes – cada dose da Sputnik V contém um vetor diferente.

Dmitriev afirmou que a intenção é focar primeiro na Rússia e, depois, pensar em exportar a vacina para outros países. Ele citou as parcerias com Índia e Brasil para produção da vacina, e disse acreditar na possibilidade de o imunizante ser fornecido a outros países em novembro.

Infográfico: Como funciona a vacina russa contra a Covid-19 - Foto: CNN
(Com informações da Reuters e de Fabricio Julião, da CNN, em São Paulo)